Anitta, quantas vezes é preciso contar a mesma história?

A cantora revisita sua trajetória mais uma vez, mas a promessa de um novo olhar sobre sua história já não causa o mesmo impacto

Quantos lados uma pessoa pode ter? São esses lados meras personas caricatas? Não estou falando dos papéis que alguém desempenha simultaneamente na vida, pois esses podem ser incontáveis. Refiro-me à essência, à personalidade em si. É com esse gancho que a pop star Anitta lança mais um projeto documental para mostrar seu “lado B”.

Larissa, o Outro Lado de Anitta é o terceiro documentário com essa proposta. O primeiro, Vai Anitta (Netflix, 2018), pretendia revelar os bastidores de sua carreira, acompanhando ensaios, reuniões e gravações de clipes. A série não teve continuidade. O segundo, Anitta: Made in Honório (Netflix, 2020), surgiu em um momento de transição: a cantora já havia iniciado sua carreira internacional, mas ainda sem a projeção global que conquistaria depois. Esse documentário funcionava como um cartão de visitas para o público estrangeiro, tentando apresentar suas múltiplas facetas: a empresária, a cantora e, claro, Larissa Machado — com suas fragilidades e inseguranças, em contraste com a figura poderosa e imponente de Anitta.

Desde então, sua trajetória mudou drasticamente. O reconhecimento internacional chegou e a consolidou como a artista que levou o funk — um gênero historicamente marginalizado no Brasil — para o mundo, especialmente depois do álbum Funk Generation. Foi um longo caminho até que o gênero carioca fosse respeitado, admirado e consumido como parte essencial da cultura brasileira. No país, seu público estava solidificado – o do funk e o da cantora. Gostando ou não, era quase impossível encontrar alguém que não conhecesse a dupla inseparável Anitta&Larissa.

Ainda existe um outro lado para mostrar?

Mesmo antes de seu lançamento, Larissa, o Outro Lado de Anitta já enfrentava críticas. Isso porque a narrativa se esgotou. A tentativa de apresentar “todos os lados” da cantora perdeu impacto porque o público já entendeu: Anitta e Larissa são a mesma pessoa. Não há um segredo a ser revelado, uma dualidade intrigante a ser explorada. O fato é: sua profissão exige uma postura imponente e inabalável, enquanto sua vida pessoal revela vulnerabilidades comuns e inerentes a qualquer um. Não há nada de especial tampouco cativante nisso. Entre músicas e filmes (mais especificamente duas séries, três álbuns e dois EPs) essa dinâmica já foi exaustivamente exposta. Será que isso não foi o suficiente para conhecermos essa pessoa que a todo custo ela quer nos apresentar?

Falando estritamente sobre o último documentário, falta autenticidade. Anitta, que sempre se destacou pela espontaneidade e pelo controle absoluto de sua própria história, parece diluída em um roteiro que força reações e emoções. Isso escancara que a maior falha do documentário está justamente na sua construção narrativa. O texto assinado por Maria Ribeiro compromete a experiência: soa piegas, carregado de um sentimentalismo forçado com falas artificiais e exageradamente emotivas, tornando a experiência de assisti-lo incômoda. O texto desperdiça um formato que teria, de fato, tudo para entregar ao público o tão “misterioso” outro lado de Anitta.  

O documentário se desenrola sob a perspectiva de Pedro Cantelmo, cineasta e um dos primeiros amores de Larissa. De tudo o que conhecemos de Anitta, era de se esperar que a relação dos dois se atravessasse. E está tudo bem. Na verdade, a inserção de Pedro traz o elemento mais genuíno (se não o único) que aparece no filme: a intensidade com que a cantora ama e se permite ser amada. É verdadeira a sua entrega aos seus amores, aos seus amigos, a sua família. Talvez porque isso seja o mais concreto que ela tem em um meio tão volátil e superficial. A sua lealdade é incontestável.

Por outro lado, falando de um ponto de vista estratégico, esse é um projeto totalmente coerente e coeso com os passos que Anitta tomou e vem tomando para se consolidar internacionalmente. Assim como fez para construir sua carreira no Brasil, primeiro a cantora fez com que todos os olhos se voltassem a ela. Só então começou a se despir da armadura do seu alter ego, visando criar um vínculo de humanização e proximidade com os fãs e o público. E é exatamente isso que ela está fazendo agora com sua audiência internacional. Esse é um movimento calculado, mas que já soa repetitivo e pouco envolvente.

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