As equipes River Braz e Bom Sucesso foram as campeãs da fase municipal dos torneios feminino e masculino, respectivamente, da Taça das Favelas-RS 2025. O evento aconteceu durante o último domingo (23/03), no Campo do Tarumã, também conhecido como CT Ninho do Falcão, em Alvorada, cidade vizinha da capital Porto Alegre. A competição é organizada pela Central Única das Favelas (CUFA), com apoio do Governo do Estado e Prefeitura Municipal, e é exclusiva para moradores de comunidades e favelas gaúchas. O principal objetivo é a integração social e a promoção da cultura de paz através do esporte.
Agora, as equipes avançam para a fase regional e levam consigo o nome dos bairros de onde vêm: Piratini e Americana. Os meninos do time Bom Sucesso são do bairro Americana e possuem entre 14 e 17 anos, idade permitida para jogar a Taça das Favelas. A localidade onde eles residem faz parte da planície de inundação do arroio Feijó e do rio Gravataí e sofre com constantes alagamentos, inclusive a enchente histórica de 2024, que no ápice atingiu 10 mil moradores do município, a maioria residente do bairro Americana.

Esporte contra o crime
Um dos objetivos da CUFA é dar visibilidade e oportunidades de um novo caminho para os atletas amadores, longe da criminalidade e dificuldades encontradas nas periferias gaúchas. “Se a gente transformar a vida de um jovem a missão já foi cumprida. A Taça é sobre identidade, mobilização social, cultura de paz e integração”, afirma Vinicius Duarte, um dos responsáveis pelo evento no Rio Grande do Sul.
Para João Victor da Silva, 16 anos, os 20 minutos de jogo, dez a cada tempo, podem ser determinantes para os atletas aspirantes. “Eu joguei ano passado e vejo como uma chance de mudar de vida. Sei que tem olheiros de Inter e Grêmio, então vou dar a minha vida para tentar me destacar e sair campeão”.

Esta é a terceira edição da Taça das Favelas no Estado. No primeiro ano, em 2023, 25 municípios participaram, somando 524 equipes inscritas. Já em 2024 e 2025, o número de cidades aumentou para 37, incluindo cidades da região Metropolitana de Porto Alegre, Serra Gaúcha, litoral, entre outras. Ano passado foram 724 e, neste ano, 1061 times inscritos.
Apoiador do evento nas três edições, o Governo do Estado trabalha a segurança pública com ações preventivas. A Taça das Favelas é uma destas ações e recebe financiamento, através do programa Pró-Esporte RS, da Secretaria Estadual do Esporte e Lazer, e apoio do Programa RS-Seguro. “A violência não é só uma questão de segurança, mas também uma questão social e econômica. O mesmo investimento que se faz na segurança pública deve ser feito nas ações preventivas”, conta sobre a estratégia governamental, Giovana Mazzarolo Foppa, assessora da unidade de Coordenação do Programa RS-Seguro.

O secretário municipal de Cultura, Esporte e Juventude de Alvorada, Nato Werlang, deu o pontapé inicial da competição no domingo e relembrou o intuito do campeonato e o papel do poder público. “Hoje, nosso maior concorrente é o tráfico, questões ilícitas e aprendizados ruins. Ao inserir o jovem no esporte ou um atrativo no contraturno escolar, com certeza estamos tirando esse moleque da rua. Talvez ele não se torne um grande atleta, mas com certeza será um grande cidadão”.
O caminho é mais importante que a chegada
A prova disto é o time feminino River Braz, do bairro Piratini, que sagrou-se bicampeão da categoria feminina no domingo. Embora reconheçam a visibilidade que a Taça das Favelas possui e as oportunidades que possam surgir avançando de fase na competição, as meninas campeãs em Alvorada sentiram falta de apoio e investimento no futebol feminino no ano anterior. “A gente teve desvantagem em tudo. Tivemos que batalhar para chegar lá. Se tivéssemos mais apoio e não tivessem desunido o time poderíamos ir mais longe”, lamenta a empreendedora e jogadora do River Braz, Claudineia Eckardt.

Em 2024, elas passaram pela fase municipal, vencendo seis jogos em Alvorada, ganharam mais cinco partidas na etapa regional, mas, na fase entre estados, puderam levar apenas 11 jogadoras do time – o restante foi composto pela própria CUFA. O resultado? Foram eliminadas para a equipe de Minas Gerais, que pode montar seu time completo. “Parece que lá pra cima é mais valorizado, tem mais benefício, os outros estados dão premiações em dinheiro, aqui fomos campeãs e não ganhamos nada”, complementa Michele Santos, também jogadora e empreendedora. “É uma luta pra mostrar qualquer coisa e não é fácil, mas a gente não desiste”, diz Claudineia.
Apesar das queixas, as meninas do bairro Piratini são gratas pela experiência e a ação nas comunidades. Michele diz que “vale a pena pela oportunidade das mais novas, o sonho de chegar lá, ver e enfrentar os outros times”. Desta vez o caminho do River Braz para a fase regional foi mais tranquilo, o primeiro jogo foi ganho por WO (walkover), e elas tiveram que vencer apenas uma partida para conquistar o segundo título da fase municipal da Taça das Favelas-RS e avançar para a etapa regional.