“Epifania” emociona com musicalidade, respeito às referências e renovação da black music
Em seu segundo álbum, Cristal corresponde às expectativas dignas da nova joia do hip-hop no Brasil. Chamando atenção desde muito cedo, com direito a participação no álbum Histórias da Minha Área, de Djonga, aos 18 anos, a cantora já mostrava potencial e personalidade. Quatro anos depois, Epifania é a obra que consolida o nome da rapper como uma afirmação dentro da cena.
Considerado um dos melhores discos do gênero em 2024, é nele que Cristal expõe a beleza da epifania de descobrir quem se é. “Na busca pelo eu virei meu novo amor” é uma das frases do álbum que você provavelmente ficará cantarolando após escutar. Mais do que uma expressão de afirmação, a linha revela uma das coisas que a cantora têm a dizer com a obra: a busca por produzir algo original junto ao seu beatmaker, MDN, só foi bem sucedida ao olhar para a black music e, consequentemente, para si mesma. “Em busca de resposta, pergunto pro espelho, com esperança que possa falar” é um trecho de outra faixa que enfatiza a procura por essa originalidade.
Na cultura hip-hop, as referências são parte fundamental na construção dos beats. O uso dos chamados samples – músicas já existentes que são utilizadas como base para as faixas – é considerado uma arte por si só. MDN, produtor que acompanha Cristal desde suas primeiras músicas, torna nítido o entrosamento com a parceira através de uma fluidez capaz de aliar dança, groove e swing, com um quê de psicodelia, em faixas que são únicas, mas que conversam de maneira harmoniosa.
Com uma combinação de soul e funk, o disco nos leva a um baile dos anos 60 e 70, ao mesmo tempo em que não nos deixa esquecer que quem conduz o ritmo é uma menina de 23 anos, com sonhos e angústias. Em Obrigada Black, Cristal diz. “Ruas que eu construí têm nome de donos que quiseram pra mim”, trazendo a negritude à pauta não só com referências musicais e num tom de exaltação, mas também de forma crua, evidenciando as lutas de uma jovem preta do Rio Grande do Sul.
Em Isso é o que eu Soul, Cristal retrata um pouco das dificuldades em prosperar dentro do estado. “Só quem sangrou em música pelo Sul sabe que não é pouco que vai me levar ao fim”. Com poucos representantes no cenário nacional do rap, o Rio Grande se vê carente de referências que ascenderam para além do reconhecimento regional. Cristal parece ser capaz de furar esta bolha e abrir novos caminhos para futuras gerações do hip-hop gaúcho.
Epifania já é uma obra-prima da artista que se mostra complexa, versátil e encantadora. Um álbum que grita e sussurra no mesmo tom: o tom da música que vem da alma.