Lançado no dia 5 de janeiro de 2025, o álbum “Debí Tirar Más Fotos” (DtMf) promete dar início a uma nova jornada musical de Bad Bunny
Divertido, afrontoso, criativo e potente são apenas alguns dos adjetivos com os quais é possível descrever o álbum musical do artista porto-riquenho Bad Bunny (Benito Antonio Ocasio Martinez) Debí Tirar Más Fotos, ou, DtMf. Bad Bunny não apenas lançou algumas músicas para divertir as festas e acalentar os nossos fones de ouvido. Ele tocou na ferida, na saudade e no desejo de voltar para as nossas casas.
Bad Bunny, porém, já havia há algum tempo desistido de trazer temas mais “caros” à política, à cultura e à América Latina. Seus últimos álbuns, Un Verano Sin Ti e Nadie Sabe Lo Que Va Pasar Manãna, apesar de trazerem ritmos dançantes e riqueza sentimental, não buscam traçar algum tipo de aprofundamento crítico. De maneira específica, Nadie Sabe Lo que Va Pasar Mañana deixa de lado, em certa medida, os ritmos latinos mais populares, como o reggaeton (embora músicas como Perro Negro tragam a batida típica), e se lança no hip-hop e no trap. A título de exemplo cita-se a música “Monaco”, que tem a batida típica do trap e uma letra centrada na “ostentação”. Esta canção, especificamente, se tornou viral no início de 2024, ilustrando, principalmente, publicações comerciais e de pessoas exibindo artigos de luxo nas redes sociais.
DtMf foi, definitivamente, um respiro. Benito trouxe a sua própria tradição em falar sobre seus sentimentos, adicionando a isso críticas políticas e a celebração intencional da cultura porto-riquenha e latino-americana. O que já estava sendo feito pelo artista ganhou uma nova roupagem a partir deste álbum, que levou o público a uma viagem à PR (Porto Rico). A capa do álbum – duas cadeiras plásticas em frente à mata porto-riquenha – foi interpretada dessa forma pelo público: cadeiras típicas presentes nas ruas das cidades latinas, em que os velhos se sentam para beber nos bares e onde as crianças dormem nas festas, enquanto os pais dançam salsa até de madrugada.
A música Nuevayol e Voy a Llevarte Pa PR são o retrato disso, já que expressam a influência da cultura porto-riquenha e latina no mundo, bem como o desejo de muitos porto-riquenhos migrantes de retornarem a sua terra. E o que falar sobre Lo Que Le Pasó a Hawaii? Se faltava crítica nas últimas obras de Benito, essa música veio para chacoalhar o imperialismo estadunidense, a gentrificação e o apagamento da cultura latina. A música faz alusão ao processo de “americanização” do Havaí, que foi anexado aos Estados Unidos em 1898, no mesmo ano em que a ilha de nascimento do artista foi invadida pela segunda vez, também pelos norte-americanos. Com isso, muitas pessoas locais foram expulsas destas regiões. A história de Porto Rico, portanto, foi contada de forma artística e criativa por parte de Benito, que também convidou o historiador Jorell Meléndez-Badillo para orientar a narrativa.
Por fim, há a música que carrega o nome do álbum, Debí Tirar Más Fotos. Diferentemente de Monaco, esta música tem sido utilizada como forma de resistência. A BBC News, por exemplo, contou a história de palestinos expulsos de Gaza, que utilizaram a faixa no TikTok para defender a paz (BBC, 2025). Com DtMf, Benito despertou um sentimento que os latino-americanos e diversos outros povos conhecem bem: a saudade.
“Saudade”, em português, não é apenas o ato de “sentir falta”. É a celebração de momentos que já passaram e o sabor de retornar a lugares guardados nas nossas memórias. Para além das críticas políticas e dos historiadores convidados, DtMf é um abraço quentinho das nossas pessoas, dos lugares de onde viemos e da nossa história.
Gracias, Benito!