Dragagem em Porto Alegre avança, mas ambientalistas questionam impactos e custos

Com investimento total de mais de R$ 700 milhões, a previsão é que sejam retirados 1,65 bilhão de metros cúbicos de sedimentos dos canais 

Quatro canais para acesso ao Porto de Porto Alegre começaram a ser dragados no último dia 19 de março: Furadinho, Pedras Brancas, Leitão e São Gonçalo. A operação, coordenada pela Portos RS, envolve cinco dragas e tem como objetivo liberar a navegação de navios de grande porte, que foi prejudicada pela formação de bancos de areia após a enchente de maio do ano passado, dificultando o tráfego e comprometendo as rotas de embarcações.

O prazo estimado para a conclusão das obras é de cinco meses. De acordo com o secretário de Logística e Transportes do Rio Grande do Sul, Juvir Costella, as dragagens são fundamentais para garantir a operação dos portos públicos do Estado. “Sem essas intervenções, a navegação seria inviável, impactando diretamente as atividades portuárias. Nosso objetivo é restabelecer o calado original dos canais, garantindo a segurança das embarcações que trafegam pela hidrovia”, afirmou Costella.

Dragagem visa realizar o desassoreamento de quatro canais que dão acesso ao Porto de Porto Alegre. Foto Guto Teixeira/PMPA 

O canal de Itapuã, na Lagoa dos Patos, entre os municípios de Viamão e Barra do Ribeiro, já está em fase final de desassoreamento, segundo o governo estadual. A previsão é de que todo o trabalho no canal de Porto Alegre seja concluído até o fim de 2026. O investimento total no setor hidroviário do Estado ultrapassa R$ 700 milhões.

Apesar de o governo estadual considerar a dragagem essencial para a retomada das operações portuárias, ambientalistas criticam a iniciativa. Para Francisco Milanez, diretor científico da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN), a medida é paliativa e ineficaz, pois os sedimentos tendem a se acumular novamente com novas chuvas.

“Se gastamos uma fortuna dragando, como estamos fazendo, estamos desperdiçando dinheiro, porque na próxima chuva o assoreamento voltará, assim como ocorreu antes. A única solução eficaz é interromper a erosão que causa o acúmulo de sedimentos nos rios. Isso exige ações urgentes, como a recomposição das matas ciliares e de encostas, além da adoção de uma agricultura mais sustentável, com técnicas que preservem o solo. Os rios, naturalmente, se limpam sozinhos, desde que a erosão seja controlada. Eles fazem isso há séculos e não precisam de dragagem”, argumenta Milanez.

Previsão é que as cinco dragas retirem 1,65 bilhão de metros cúbicos de sedimentos dos canais. Foto: Guto Teixeira/PMPA 

Além da questão ambiental, a AGAPAN também questiona a motivação por trás da iniciativa. A entidade critica o uso de recursos públicos para financiar uma obra que, segundo eles, beneficia majoritariamente grandes empresas que utilizam a hidrovia para escoamento de produtos.

“Estamos falando de um investimento gigantesco de dinheiro público, que veio por causa da crise, mas que, na prática, atende os interesses de poucas empresas. Somos favoráveis ao transporte pluvial, mas as próprias empresas poderiam ajudar a financiar essa dragagem, já que são as principais beneficiadas. Enquanto isso, outros rios seguem assoreados, sem nenhuma intervenção”, afirma Milanez. Ele aponta ainda que os canais priorizados na dragagem atendem, principalmente, setores como o polo petroquímico e indústrias de fertilizantes, levantando dúvidas sobre o real interesse público da obra.

Em nota, a Secretaria Estadual de Logística e Transporte disse que “as ações de dragagem estão sendo custeadas por recursos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), verba pública que está sendo aplicada no desassoreamento dos canais públicos de navegação que são de responsabilidade do Estado. Com relação à situação dos canais privados, os assuntos estão sendo tratados pelas empresas para que cada uma faça o projeto necessário para viabilizar as obras, que serão financiadas com recursos privados. As hidrovias são estaduais e a manutenção da infraestrutura de transportes compete ao Estado. As dragagens têm o objetivo de restabelecer a infraestrutura hidroviária, permitindo o escoamento das riquezas produzidas no Rio Grande do Sul e a manutenção de uma cadeia de negócios gerados pelo modal hidroviário”.

A reportagem questionou a Secretaria Estadual de Logística e Transporte sobre os impactos ambientais mencionados pela AGAPAN. Em resposta, a secretaria informou que a responsabilidade sobre essa questão cabe à Secretaria Estadual de Meio Ambiente, que por sua vez encaminhou o assunto para a Portos RS. De acordo com a SEMA, seu papel é apenas fiscalizar, enquanto a execução das obras fica a cargo da Portos RS.

Nos próximos meses, outros 12 pontos também devem receber esse serviço. Foto: Laura Santiago/BETA REDAÇÃO

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