“Emilia Pérez”, um musical agridoce e polêmico

Com duas vitórias no Oscar, o filme aposta em uma narrativa ousada desafiando convenções do gênero

Emilia Pérez não foi feito para ser digerido com facilidade. O longa dirigido pelo francês Jacques Audiard entrega uma narrativa agridoce, ousada e por vezes desconcertante — e talvez aí resida sua principal força e também sua maior fraqueza.

Lançado em agosto de 2024, o filme se tornou o mais indicado ao Oscar 2025, com 13 nomeações e duas estatuetas conquistadas, incluindo Melhor Atriz Coadjuvante, para Zoe Saldaña, e Melhor Trilha Sonora Original, por El Mal, interpretada pela própria atriz estadunidense de ascendência porto-riquenha e dominicana. A produção é uma adaptação livre do capítulo Écoute (“Escute”), do escritor francês Boris Razon, e foi comprada pela Netflix como sua grande aposta na temporada de premiações.

A trama se desenrola no coração de um México violento e dominado por cartéis. Rita (Zoe Saldaña), advogada frustrada com a corrupção do sistema judicial, recebe uma proposta: ajudar Manitas, um temido narcotraficante, a desaparecer e realizar sua transição de gênero, tornando-se Emilia Pérez, interpretada com intensidade e vulnerabilidade pela atriz trans espanhola Karla Sofía Gascón. O arco de Emilia, marcado pela busca de redenção e pela tentativa de se reconectar com os filhos e com a ex-esposa Jessi (Selena Gomez), conduz o espectador por uma jornada que mistura crime, redenção e identidade.

Jessi é o primeiro papel de Selena Gomez em um filme de grande relevância. Foto: Divulgação/IMDb

Uma representatividade complexa

Premiado em Cannes com o Prêmio do Júri e o troféu coletivo de Melhor Performance Feminina para o trio de protagonistas, Emilia Pérez carrega consigo o peso de ter sido a primeira produção a levar uma mulher trans à indicação de Melhor Atriz no Oscar. Karla Sofía Gascón, que realizou sua transição em 2018, tornou-se um marco histórico para a premiação, embora polêmicas envolvendo antigas declarações preconceituosas da atriz tenham ofuscado parte desse feito.

Na trama, a personagem de Karla entra em uma jornada em busca de sua verdadeira identidade. Foto: Divulgação/IMDb

O filme, no entanto, não se propõe a ser uma representação fiel da cultura mexicana. O México aqui é palco, não personagem. As referências culturais são diluídas, e o sotaque das protagonistas evidencia a decisão de Audiard de criar um cenário latino genérico, que poderia ser transferido para qualquer outro país da região sem grandes perdas narrativas. É uma escolha deliberada, ainda que controversa.

O diferencial de Emilia Pérez está justamente em seu híbrido de gêneros. O musical se despe de qualquer comparação fácil com blockbusters como Wicked e aposta no surrealismo, no grotesco e no cômico para narrar uma história brutal. Os números musicais funcionam como pontes narrativas e confessionários — ora poéticos, ora desconfortáveis. Destaque para a canção El Mal, vencedora do Oscar, que demonstra toda a grandiosidade estética da obra. Ao mesmo tempo, músicas como La Vaginoplastia beiram o absurdo e flertam com o bizarro. Por vezes, a sensação é de assistir a um filme independente de alto orçamento — com seus 25 milhões de euros de produção — que não tem medo de desafiar convenções ou causar estranhamento.

Zoe foi o grande destaque da obra, provando sua versatilidade como atriz ao vencer os principais prêmios da temporada. Foto: Divulgação/IMDb

Um futuro cult

Emilia Pérez dificilmente agradará a todos. A mistura de realismo e fábula, com números musicais que surgem abruptamente, pode afastar o público acostumado a narrativas mais lineares. Ainda assim, o filme conquista pela originalidade e pela coragem de propor uma experiência cinematográfica incomum.

Longe de ser um musical convencional, a obra de Audiard deve encontrar seu espaço entre os clássicos cults — aqueles que dividem opiniões, mas jamais passam despercebidos. Um filme para ser sentido, mais do que compreendido. E, acima de tudo, impossível de ser ignorado e esquecido. Habla, esta gente habla!

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