Por trás da trama pulsante de Água Turva, segundo romance da escritora gaúcha Morgana Kretzmann, há um debate atual e urgente: o embate entre preservação ambiental e exploração predatória da natureza. Com uma narrativa que mescla ação, drama familiar e elementos sobrenaturais, a autora constrói um thriller ecológico ágil e instigante, ambientado no Parque Estadual do Turvo, no Rio Grande do Sul.
A obra acompanha três protagonistas femininas multifacetadas – Chaya, Preta e Olga – cujas trajetórias se entrelaçam de maneira intensa e imprevisível. Chaya, a guarda-florestal, tem uma conexão visceral com a terra e representa a luta pela preservação ambiental. Preta lidera um grupo de caçadores e vive o dilema entre suas raízes e a necessidade de sobrevivência. Já Olga, assessora parlamentar de um deputado progressista, assume o papel de denunciante, buscando a verdade em um ambiente marcado por corrupção e machismo. O livro evita a divisão simplista entre mocinhos e vilões, apostando em personagens complexas, cujas escolhas são tão ambíguas quanto os conflitos que enfrentam.
A narrativa se desenvolve em um ritmo ágil e fragmentado, alternando entre passado e presente, o que amplifica a tensão e revela como escolhas do passado reverberam no presente. O tempo, nesse sentido, se torna um protagonista invisível, moldando as cicatrizes e os destinos das personagens.
Outro elemento que enriquece a trama é o toque sobrenatural, representado por Sarampião, bisavô de Chaya e Preta, um antigo guarda ambiental que se torna um espírito protetor do parque. Esse aspecto adiciona uma camada folclórica e simbólica à história, reforçando a ancestralidade e a resiliência dos ambientes naturais diante da ganância humana.
Se há algo que pode soar exagerado em Água Turva, é a intensidade dos conflitos entre as protagonistas. As brigas constantes, embora coerentes com suas trajetórias, por vezes se tornam repetitivas. Ainda assim, a trama se mantém envolvente, graças à escrita dinâmica de Kretzmann e à riqueza do universo criado.
Para além do drama pessoal, o livro faz uma crítica contundente ao poder corrupto e à exploração desenfreada dos recursos naturais, representados no personagem do deputado Heichman. Embora sua caracterização flerte com o maniqueísmo, sua figura dialoga diretamente com a realidade política do Brasil, tornando a crítica ambiental e social ainda mais contundente.
No geral, é uma leitura instigante, que prende do início ao fim. Com um ritmo de thriller, aborda questões ambientais e sociais de forma impactante, sem perder a profundidade emocional de suas protagonistas. A ambientação detalhada transforma o Parque Estadual do Turvo em um personagem tão vivo quanto as próprias Chaya, Preta e Olga.
Água Turva é uma obra contemporânea que deve ser lida, debatida e, acima de tudo, compreendida como um alerta vital para os desafios de nosso tempo.