Filme gaúcho reflete sobre a solidão e os limites da opressão

Drama político baseado em relatos do guerrilheiro João Carlos Bona Garcia apresenta resultado irregular sem dar a profundidade necessária para o tema

Ainda Somos os Mesmos mergulha num tempo nefasto da história da América do Sul. Uma época que gostaríamos de esquecer, mas não podemos por um motivo bem simples: não pode mais acontecer.

O filme narra a trajetória de um grupo de ativistas políticos de esquerda que ficam presos na embaixada da Argentina, em Santiago (Chile), por 42 dias, durante o golpe militar que colocou o general Augusto Pinochet como presidente do país. Gravado no Chile e no Brasil, ele consegue nos transportar para o período de opressão militar que os dois países atravessavam no período.

Escrita e dirigida por Paulo Nascimento (Em Teu Nome), a obra é protagonizada por Gabriel (Lucas Zaffari), um jovem militante de esquerda que faz parte de uma guerrilha anti-ditadura e foge da perseguição dos militares no Brasil, e Fernando (Edson Celulari), um proeminente empresário do ramo de calçados com negócios com o regime militar.

Ainda Somos os Mesmos divide as ações entre os conflitos dentro da embaixada e os esforços de Fernando para trazer o filho para o Brasil. Flashbacks mostram como o personagem de Gabriel chegou nessa situação. A parte mais potente se dá quando os refugiados precisam tomar a decisão em caráter de urgência de entregar para os militares o diretor do Banco Central do governo deposto. Esse momento nos apresenta a divisão entre as diversas cabeças que fazem parte do grupo, porém o filme não aprofunda suas motivações.

A narrativa também acerta ao discutir a questão da saúde mental através da personagem Clara (Carol Castro), uma mulher traumatizada com a morte violenta do marido e que, apesar de ser uma brilhante economista, passa a cada vez mais apresentar sinais de traumas e fragilidades pelos eventos violentos. Aliás, todos os personagens apresentam sinais de instabilidade e fraquezas perante a pressão exercida pelos militares.

Infelizmente, as qualidades do filme se esgotam rapidamente. O enredo peca na falta de progressão e na falta de causa e consequência. Arcos são abertos e não são fechados. Ou falta dar complexidade aos personagens.
Os flashbacks parecem fora de sintonia com o que se apresenta no resto do filme. Os retratos dos militares também aparecem de forma caricata, tanto os brasileiros quanto os chilenos. Faltam nuances para entender a motivação deles, simplesmente parecem sádicos sedentos por sangue.

Apesar de apresentar uma relação interessante entre o passado e os eventos recentes de ataque à democracia, o filme peca na sua execução e na profundidade do tema tão importante como o retrato dos horrores do regime militar.

Ainda Somos os Mesmos é uma produção gaúcha que conta com patrocínio do Novo Hamburgo Polo Audiovisual e apoio da Porto Alegre Film Commission e da Locall de Cinema e Televisão de Porto Alegre.

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