Muitas vezes invisibilizadas na história e na arte, elas são protagonistas em exposição no Museu Júlio de Castilhos
A magia dos museus em teletransportar os visitantes que por lá passam para outros tempos da história é incontestável. É o que acontece com quem desejar experimentar o contato com objetos de uma família importante para a história do Rio Grande do Sul percorrendo o Museu de História Julio de Castilhos.
Além das várias exposições e mais de dez mil itens em seu acervo, uma mostra de longa duração do MJC se chama Narrativas do Feminino. O conjunto de obras se deu a partir do desejo de mulheres que trabalhavam no museu no ano de 2020. A proposta é mostrar a singularidade da figura feminina e trazer ao público a representação e o papel importante que as mulheres tiveram na história.

Desta vez, o foco se dá a partir de um olhar positivo e não a partir do preconceito que a figura feminina recebe ao longo do tempo. Afinal, não é incomum a situação de invisibilidade em que a figura feminina era colocada, em outras épocas, principalmente quando era parte de famílias em que os homens ocupavam cargos públicos e faziam parte da elite.

A ideia da exposição é propor uma vista mais refinada das histórias de vida de cada uma delas, dando destaque às ações e feitos admiráveis dessas mulheres. Há quatro anos em exibição, esse é o fio condutor que permanece intacto na exposição exibida pelo Júlio de Castilhos.
O que muda na exposição a cada ano são temas, objetos e ângulos para falar das mulheres gaúchas. O objetivo é promover reflexões e trazer visibilidade para a trajetória de luta das mulheres, com foco que se desenvolve a partir do século XX.

A fase atual da mostra teve início em fevereiro de 2024, assinada pela curadora Monica Wiggers. De acordo com ela, o processo criativo de novas exposições depende muito dos objetos do acervo do museu. A partir daí, os envolvidos na exibição pensam na melhor maneira de contar as histórias. A curadora propõe uma visão otimista dos itens expostos, como os leques que eram utilizados pelas mulheres que viviam na casa onde hoje é o museu. Eles foram colocados em evidência ao público no primeiro ciclo e serviram de gancho para outras pautas femininas.
Monica enfatiza que, através das buscas atentas a documentos e fotos, é possível observar um apagamento das mulheres e a inviabilização destas nos espaços culturais e que era preciso mudar esse cenário. “Diante da presença predominantemente masculina, a ideia é trazer a mulher como destaque no museu, a presença dela na cultura e na história”, afirma.
REPRESENTATIVIDADE FEMININA
Ao longo dos anos, a exposição já apresentou temáticas como As Lavadeiras, que no século XX, após a abolição, exerciam praticamente as mesmas funções. Agora livres, buscavam as roupas nas casas da elite e as lavavam nas águas do Guaíba ou no Arroio Dilúvio em Porto Alegre.
As Mulheres da Elite e Mulheres Intelectuais também já foram parte da exibição e seguem disponíveis na versão online. Ensinadas a serem boas esposas, o que incluía serem boas anfitriãs e conhecedoras da cultura, as mulheres de elite tinham influência nas escolhas políticas de seus maridos.
Já as Mulheres Intelectuais, tiveram um papel muito importante para a autonomia feminina. A partir de publicações escritas e estudos acadêmicos, muitas se graduaram em cursos como odontologia, direito e medicina, sempre conciliando com o trabalho que exerciam durante o dia.

REPRESENTATIVIDADE DA MULHER NEGRA NO RS
A intervenção atual, apresenta o protagonismo das mulheres negras, as primeiras a criarem ateliês de costura nas suas próprias casas e a comercializarem alimentos para os banquetes da elite no século XX. Trazendo a exposição para a atualidade, a curadoria apresenta objetos importantes de mulheres que fazem a diferença na cultura gaúcha.

A Beta Redação entrevistou Jaqueline Trindade, a rapper Negra Jaque, a primeira mulher a vencer a Batalha do Mercado e também a mestra de samba Alexsandra Amaral. Duas artistas que revelam as dificuldades de se destacar em meios artísticos de maioria masculina.
Convivendo com o samba desde a infância, Mestra Alê era proibida pelo pai de tocar instrumentos. Ela recorda as frases que ouvia: “ele dizia que era um ambiente só de homens e que eu, por ser menina, tinha que ficar com a minha mãe”. A única a acreditar que a jovem um dia tocaria em escola de samba, era a avó. Com o tempo e muita dedicação, Alexsandra foi se destacando e sendo vista pelas escolas de samba do Rio Grande do Sul, se tornando a primeira mestra de samba do Brasil. “Ano passado fui homenageada pela Unimúsica – Projeto de música criado pela UFRGS”, relata orgulhosa.

Ela ainda conta do sentimento de ser exemplo para quem sonha em ser percussionista, “recebo mensagens de mulheres que se inspiram em mim e no meu trabalho” conta a mestra, que ficou emocionada em fazer parte da exposição sobre as mulheres negras do Rio Grande do Sul, “me senti honrada em receber uma homenagem como essa em vida”.

Negra Jaque, assim como a Mestra Alê, cita o apagamento das mulheres negras ao longo da história, e comemora a exposição: “eu vejo como um processo fundamental, para contarmos a história gaúcha de outro prisma e trazer referências para a comunidade negra do estado”, afirma a rapper, que também é mediadora no Museu da Cultura Hip Hop em Porto Alegre.

No mundo da música há 17 anos, Negra Jaque se orgulha de fazer parte da exposição Narrativas do Feminino: “é muito importante a gente se enxergar e ser reconhecida pelo nosso trabalho”. Ela revela ainda, que não tem apego aos itens cedidos ao MJC: “somos efêmeros e transitórios. É para o mundo, não é meu”, esclarece a artista.

A experiência da visitação presencial é ainda mais rica do que a virtual, mas para quem não pode comparecer, explorar os objetos remotamente também traz muitas descobertas interessantes, principalmente para apreciar os ciclos anteriores que não estão mais expostos. A cada dispositivo que se encontra, um novo conhecimento e curiosidade sobre as mulheres negras, suas histórias e respectivas contribuições para a cultura gaúcha.

O Museu Júlio de Castilhos, “vira uma chave”, como citou Negra Jaque, para que, segundo ela: “outros museus, a partir de seus próprios recortes, se inspirem nessa iniciativa e contem a história das mulheres negras, que foi apagada”, conclui. Portanto, é de extrema importância que a exposição Narrativas do Feminino seja mais conhecida pelo povo gaúcho, para redescobrir a verdadeira história do Rio Grande do Sul.
Informações:
Visitação gratuita de terça à sábado. Das 10 h às 17h, sem agendamento prévio.
Rua Duque de Caxias, 1205 – Centro Histórico, Porto Alegre.
Para mais informações, entrar em contato pelo telefone: (51) 3221-3959.