Ruptura (Severance) é uma série de suspense psicológico e ficção científica que acompanha funcionários da Lumon Industries, uma empresa que submete seus empregados a um procedimento experimental de separação das memórias pessoais e profissionais. Quando estão no trabalho, os funcionários só têm recordações relacionadas ao expediente, e quando estão em casa, esquecem tudo sobre suas vidas no escritório.
A segunda temporada de Ruptura chega num momento em que a crise de saúde mental no trabalho tem ganhado destaque. Essa crise é refletida em um levantamento do Ministério da Previdência Social, que revela um aumento de 68% nos afastamentos do trabalho por ansiedade e depressão em 2024, em comparação aos últimos 10 anos. Esse cenário torna a série ainda mais relevante, uma vez que sua trama explora uma desconexão entre a vida pessoal e profissional como uma maneira de “desligar” os trabalhadores do desgaste mental que muitas vezes se prolonga para além do expediente.
Assim como na primeira, a segunda temporada de Ruptura mantém o tom misterioso, curioso e obscuro. No entanto, ocorre uma mudança de foco. Se na temporada anterior o enredo era investigar o propósito do trabalho, os limites e as implicações da Lumon, agora a narrativa se aprofunda nas consequências dos eventos desta investigação e nos mistérios complexos por trás da corporação.
Apesar dos três anos de espera, Ben Stiller e Aiofe McArdle conseguiram sustentar o alto padrão de qualidade da série, como comprovam os 95% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes. Aliado a isso, Ruptura se tornou uma das séries mais caras da história, o que se reflete no nível de detalhes e na grandiosidade da produção. A cinematografia se destaca pela sua estética impecável e minimalista. O uso da paleta de cores frias, como branco e azul ajuda a criar uma atmosfera que intensifica a imersão do espectador na narrativa tensa e cheia de segredos. Além disso, os enquadramentos precisos e os toques da trilha sonora reforçam a sensação de isolamento e inquietação dos personagens.
Desconforto, curiosidade, ansiedade, irritação e confusão. Estes são alguns dos sentimentos que os episódios despertam no espectador. No entanto, entre as camadas de tensão, também há o fascínio, a empolgação e o alívio. A trama consegue “brincar” com as nossas emoções à medida que a história avança. Cada revelação provoca novas perguntas que mantêm o espectador preso em um ciclo constante de incertezas a respeito da trama.
Os primeiros quatro episódios entregam uma combinação de segredos, reviravoltas e bizarrice dentro e fora dos corredores da Lumon. Ao assisti-los, a impressão que fica é que a empresa está cedendo às vontades de seus funcionários. Mas será? A trama consegue jogar com as expectativas de quem está assistindo, ao mesmo tempo em que explora as complexas dinâmicas de poder e controle. Em um episódio parece que estamos compreendendo tudo, mas em seguida, somos jogados para um novo limbo de confusão – principalmente em relação às cabras.
Embora os longos segundos de pausa de câmera possam gerar certa lentidão na narrativa, eles ajudam a intensificar o impacto das cenas. Os episódios 5, 6, 7 e 8 são ainda mais intrigantes. Contudo, o roteiro segue acrescentando muitos elementos à narrativa sem oferecer as devidas respostas. A falta de explicações vai criando uma sensação de frustração em quem assiste pois é difícil realmente entender o que está acontecendo.
Como era de se esperar, os diretores deixaram o clímax para o final. O espectador finalmente obtém algumas das respostas das perguntas deixadas pela primeira temporada num episódio longo, angustiante e perturbador. No entanto, ao mesmo tempo que revelações são expostas, surgem o dobro de dúvidas que causam um pouco de irritação. Essa escolha, embora eficaz em manter o suspense e a continuação da série, se torna cada vez mais exaustiva.
Apesar dos desafios narrativos apresentados, Ruptura se mantém como uma produção envolvente, destacando-se pela estética refinada e por uma crítica social que ressoa no contexto atual. Com a próxima temporada, a expectativa é de que a série mantenha a qualidade e solucione os mistérios que continuam a intrigar o público.