Segundo a CNseg – Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, as solicitações de indenizações de seguros no Rio Grande do Sul já alcançaram os R$ 6 bilhões. Buscando compreender o real cenário das seguradoras, a Beta Redação entrevistou o diretor do Sindsegrs – Sindicato das Seguradoras no RS, Cleverson Veroneze, que é securitário, formado em Administração de Empresas e superintendente do Bradesco Seguros há 18 anos.
Cleverson relata que um dos seus maiores desafios fazendo parte do quadro de diretores do Sindsegrs, principalmente com o cenário das enchentes de maio, é lidar com a informação de que eventos como esse têm maiores possibilidades de voltar a acontecer. “As seguradoras precisam colocar essa situação como parte de seus produtos e ofertar para os clientes”, ressalta.
Confira a seguir a entrevista.
Quais as principais frentes em que o Sindsegrs atua e como teve que se adaptar nas enchentes?
Uma das principais frentes é a responsabilidade social para com a população, de disseminar a cultura do seguro. Essa, para mim, é a principal função do sindicato para fora do mercado. Além disso, organizar a estrutura do seguro dentro do sindicato de forma que ele atenda também o sindicato dos corretores.
Sobre o papel que o sindicato teve neste evento [enchentes], eu vejo como protagonista. Porque a CNseg, prontamente, acionou mais de 40 seguradoras que são associadas a ela. E nessa oportunidade nós pudemos entender quais eram as primeiras necessidades. As pessoas perderam seus celulares, os seus computadores, seus acessos a contas, e provavelmente teriam dificuldade de realizar seus pagamentos. Então, prontamente, todas as seguradoras flexibilizaram os pagamentos dos seguros para que nenhum segurado ficasse sem cobertura ou tivesse sua apólice cancelada por falta de pagamento durante o período.
Nós também direcionamos equipes especializadas nas regulações dos sinistros que ocorreram aqui, que estavam em Santa Catarina, no Paraná ou em outras regiões do estado, e direcionamos como uma força-tarefa para atender os sinistros. Além disso, flexibilizamos a maneira que os sinistros foram vistoriados: ao invés de ser presencialmente, foram regulados a distância, fazendo com que a gente pudesse colocar o dinheiro na conta desses segurados afetados o mais rápido possível.
O 23º Congresso Brasileiro dos Corretores de Seguros será em novembro. E lá serão tratados assuntos como a distribuição de seguros no Brasil e o futuro do setor. Qual é a tua opinião sobre o futuro da distribuição de seguros no Brasil?
Para falar da distribuição, precisamos falar de cultura e avaliar como estamos em relação ao mundo. Por exemplo, em 2024, o mundo teve R$ 360 bilhões de prejuízo decorrentes de eventos da natureza, dos quais somente 30% estavam segurados. Tratando-se do Rio Grande do Sul em 2024, tivemos R$100 bilhões de prejuízo, uma expectativa de indenizações já na casa de R$ 6 bilhões, e isso representa apenas 6% do prejuízo.
Nós temos a responsabilidade de disseminar a cultura do seguro em todos as suas vertentes, seja de automóvel, residencial, seguro de vida, seguro saúde. Porque o brasileiro ainda contrata muito pouco, não está na cultura. Ele define o seguro como um custo e não como um benefício, mas com um valor acessível é possível que o segurado tenha sua residência salvaguardada de um incêndio, de um vendaval.
Acredito que a função principal em um congresso como esse é a disseminação da cultura de seguro, como as pessoas que estão ali no congresso, que são responsáveis por disseminar e comercializar, podem fazer para que o seguro seja visto de outra maneira. Ele ainda não tem a importância correta. Eu acredito que a população precisa usar, infelizmente, de tudo o que aconteceu para se precaver. As seguradoras e os corretores estão preparados para atender.
Como as seguradoras foram atingidas pelas enchentes, em se tratando do evento inesperado e diversos tipos de itens segurados sendo atingidos simultaneamente?
Todas as seguradoras são supervisionadas pelo órgão regulador, que é a Susep. E esse órgão exige que as seguradoras possuam reservas técnicas suficientes para arcar com os sinistros. Então, por exemplo, uma parte do seguro que você paga vai para uma reserva técnica para quando alguém tiver sinistro, a seguradora possa arcar com o valor.
É assim que funciona o mutualismo e as seguradoras. Absolutamente todas elas que estão no Rio Grande do Sul tiveram essas reservas técnicas suficientes para arcar com os valores exigidos, que são uma pequena parte da reserva total exigida.
É muito difícil que ocorra um impacto no preço dos seguros de automóveis, porque o prejuízo já foi contabilizado e porque o RS é uma parte do Brasil, logo, o custo do seguro de automóvel é diluído para o país inteiro. Eu não acredito que nós tenhamos aumentos de seguro aqui no estado por conta da catástrofe. Pode ser que haja outros eventos, como a tabela Fipe dos carros, que passaram a subir, ou a sinistralidade de roubo ou de alguma região, que podem afetar e fazer com que o valor do seguro suba.
Existe algum protocolo para cenários de catástrofe? Se sim, isso se deu após as enchentes?
Todas as seguradoras aprenderam com isso. Aprenderam a regular sinistro de forma mais simples e ágil e que dá para fazer a distância. Mas sabemos que isso não é algo que se insere no dia a dia e na vida normal. Criamos protocolos para que, se ocorrer uma outra enchente amanhã, acredito que estamos muito mais preparados do que estávamos em maio. Já sabemos tudo o que funcionou e essas informações ficam guardadas para que, se preciso, a gente use. Por que não usar sempre? Porque o dia a dia é diferente. Então, quando se tem uma perda de um veículo, é realizada uma conferência do tipo de perda. O fluxo normal, que funciona muito bem, precisa seguir. Em um evento que foi pontual e da proporção que teve, as ações precisaram ser diferentes.
Passados alguns meses das enchentes, como está o setor? Tu falaste que não teve tanto prejuízo, que foi algo mais pontual. Terias algo a acrescentar?
O setor de seguros, de uma forma geral, indenizou quase R$ 8 bilhões na pandemia de Covid-19. O setor de seguros estava machucado, ainda em 2023 terminando de corrigir os seus resultados decorrentes desse momento. Quando eu analiso os últimos três anos, ele vinha recuperando este resultado e iniciou 2024 prevendo uma safra para o seguro rural muito boa, prevendo um resultado positivo nos automóveis, voltando à tabela Fipe normal e precificação e concorrência que havia em 2019. Então era previsto para 2024 um cenário de vida e concorrência normais. Mas com as enchentes, houve muitas perdas e acredito que pode ser que haja mais. Existem os chamados grandes riscos, que são seguros de patrimoniais com prêmios maiores, regulações e cosseguros. Estima-se, segundo reportagem da CNseg, que o valor pode chegar a R$ 8 bilhões.